Voando com um Narcisista
Livro completo
Nota do Autor
Este livro registra experiências que vivi entre junho de 2025 e março de 2026. O que você encontrará nestas páginas não é uma obra de ficção, mas o relato da minha memória e da forma como vivenciei esses acontecimentos.
Alguns episódios estão documentados em registros digitais — mensagens, fotos com geolocalização, históricos de pagamento, bilhetes de voo. Outros ocorreram no território invisível das relações humanas, onde muitas vezes a única evidência possível é a marca emocional deixada em quem viveu a experiência.
Alguns nomes e detalhes foram omitidos ou alterados por razões de privacidade. Os eventos descritos refletem a cronologia e a experiência que vivi naquele período. Este relato não tem a intenção de atacar a honra de terceiros, mas de exercer meu direito de contar minha própria história.
Prefácio
Eu pensei em escrever sobre o Dorama diversas vezes nos últimos meses. Sempre desistia depois de me fazer a mesma pergunta: como poderia expor uma pessoa publicamente, mesmo tendo ela me causado tanto sofrimento?
Também me assustava imaginar o julgamento de quem soubesse que eu havia desistido de alguém que, durante nove meses, cogitei que pudesse ser bipolar, depressivo ou ter TDAH. A ideia de ser visto como alguém que abandonou outra pessoa em sofrimento seria dolorosa. Afinal, eu sempre valorizei a saúde mental. Dentro de um relacionamento, minha essência sempre foi ajudar, acolher, tentar encontrar um caminho junto. Na minha cabeça, estava muito claro que eu não podia abandonar alguém que precisava de ajuda.
A resposta chegou num voo de doze horas, num dia de março de 2026.
Eu passava o dedo pela tela do celular sem realmente ver o que aparecia. Minha mente estava em outro lugar. Só conseguia pensar: eu fiz de tudo por ele. Por que ele não consegue enxergar o quanto as atitudes dele me fazem mal? Será que é mesmo a minha culpa? Eu disse por dois dias seguidos que não havia entupido o banheiro — enquanto a descarga funcionava normalmente.
Me deparei com um vídeo sobre Transtorno da Personalidade Narcisista. Assisti três vezes. O suficiente para que o algoritmo começasse a me recomendar mais dez, depois mais dez, depois outros dez. Todos descrevendo os mesmos sintomas, os mesmos padrões, com relatos de vítimas que pareciam ter sido copiados uns dos outros — um único manual de instruções em vídeos.
Era como se todo narcisista tivesse passado pelo mesmo curso de como agir.
Depois de doze horas assistindo especialistas e ouvindo um dos livros mais populares sobre o assunto, algo mudou dentro de mim. Foi tão rápido e suave que ainda custo a acreditar.
Eu estava livre.
Tinha acabado de me libertar de uma pessoa que me bombardeou com amor, atacou meus pontos mais vulneráveis até eu duvidar da minha própria sanidade — e depois me descartou como se todas as promessas, palavras e demonstrações de amor não valessem nada. E, de fato, não valiam.
Em menos de dois dias, ele sempre voltava. Me fisgava com uma mensagem confusa, repleta de informações incoerentes. Depois de uma hora de conversa — sem responsabilidade, sem pedido de desculpas — eu iniciava meus questionamentos. Toda a nossa história me deixava cada vez mais confuso: ele disse isso mesmo? É a diferença cultural? É a barreira do idioma?
Por outro lado, estava completamente claro para mim que as situações em que eu teria quebrado um objeto que não toquei, entupido o vaso sanitário ou deixado a pia suja simplesmente não aconteceram. E quanto mais eu negava, mais ele criava discussões, distorcendo completamente o sentido de cada frase.
Viciado num ciclo que começou logo na primeira noite que nos conhecemos, eu dava a nós mais uma chance.
Durante nove meses, o ciclo recomeçava da mesma forma:
Eu era amado. Eu me sentia humilhado. Eu era descartado.
Eu sentia falta desse ciclo viciante sem perceber — e quando recebia a primeira tentativa de reconciliação, eu voltava.
Essa história foi vivida nesse ritmo em diferentes lugares do mundo: China, Hong Kong, Indonésia, Japão, Catar, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Filipinas, Singapura e, pela última vez, onde tudo começou.
Sim, tudo em nove meses. Sim, todos os meses houve discussões que resultaram em términos, expulsões, abandonos ou momentos de lucidez em que eu percebia que merecia algo melhor. Algumas vezes o ciclo se reiniciava semanalmente.
Todas essas vezes, um pedaço da minha alma e da minha sanidade parecia ser arrancado diante dos meus próprios olhos.
Eu assistia. Eu não entendia. Somente sorria e sentia.
Com o coração afundado em tristeza — e com a resiliência que sempre fez parte de quem eu sou — eu começava a me reconstruir. Pronto para voltar ao ciclo que hoje entendo ser de dependência e violência emocional.
Depois de passar por consultas psiquiátricas e psicológicas, tomei uma decisão: contar tudo que vivi, com detalhes que vão me expor como nem mesmo as pessoas mais próximas da minha vida já me viram. Sem esconder os aspectos íntimos que, por algum motivo, hoje não me causam vergonha. Detalhes e comportamentos que reprogramaram meu cérebro para acreditar que eu deveria me satisfazer com cada vez menos amor, menos afeto — e que me fizeram me sentir cada vez menos humano e mais um objeto.
Neste livro, vou te levar para viajar comigo.
Você vai sentir raiva de mim e não entender por que eu aceitava, por que eu voltava. Se isso acontecer, eu ficaria feliz — vai querer dizer que você não é presa fácil para um narcisista. Você também verá como eu não sou perfeito, e como o TDAH contribuiu tanto para a escalada das discussões quanto para as reconciliações.
Mas durante as inúmeras discussões, você me verá lúcido, quase sempre racional, tentando solucionar problemas que eram provocados na grande maioria das vezes por ele. Durante as reconciliações, eu abrirei cada vez mais os meus medos e inseguranças — um erro fatal em relacionamentos com essa dinâmica. Tudo que era dito seria usado contra mim.
A leitura ficará mais pesada a cada capítulo. Os ataques e microagressões ditos com um sorriso no rosto, as cuspidas na cara durante brincadeiras, as vezes em que senti dor e meus limites não eram respeitados — tudo isso vai te deixar sem entender a forma como eu reagia. Por que, ao final dessa história, eu ria quando ele me chamava de macaco, estúpido, gordo — sendo que no início eu já havia imposto limites a esses mesmos comportamentos?
Somente quem sobreviveu a um relacionamento narcisista conseguiria responder agora. Você entenderá ao longo desta história.
Este livro não é um diagnóstico. É o relato de como eu vivi esses nove meses. O abuso psicológico raramente parece absurdo para quem está dentro — ele acontece em pequenas situações repetidas, em inversões de culpa, em momentos que fazem a vítima duvidar da própria percepção.
Escrever este livro foi a defesa que eu nunca consegui fazer.
Espero que seja também a sua.
CAPÍTULO 1
A Primeira Noite
Ele me pediu para dormir com ele
NOVA YORK, MAIO DE 2025
Sou comissário de voo há doze anos e, desde 2021, crio conteúdo para as redes sociais. Começou com um vídeo bobo, gravado só para me distrair, em que eu dublava um áudio viral da época.
O segundo — já de uniforme — passou de um milhão de visualizações. Em poucos dias, ganhei dez mil seguidores.
Eu não entendia nada de redes sociais. Antes, postava fotos soltas de viagens, paisagens, pratos de comida. Em menos de quatro anos, meus perfis passaram de 2,3 milhões de seguidores e meio bilhão de visualizações.
Na maioria dos vídeos, eu contava curiosidades, causos e bastidores da aviação. Enquanto tantas empresas demitiam tripulantes por publicações inofensivas, a minha me deixava seguir produzindo meu conteúdo leve e humorístico. Eu tinha a companhia como aliada.
Isso mudou quando comecei a voar para o Japão, habilitado no idioma. Aos olhos de quem me admirava pela veia cômica somaram-se os de colegas que não engoliram a melhora da minha escala: eu passaria a voar menos, ganhando mais, para um destino cobiçado por quase toda a empresa.
Não demorou para as mentiras começarem. Um relatório cheio de informações falsas sobre um dos meus vídeos chegou à gerência, e fui chamado para mais uma reunião com o RH. Analisaram os vídeos e as acusações e, previsivelmente, voltei para casa sem punição alguma.
Ainda assim, algo mudou na forma como eu via as redes. O que era renda extra, diversão e conexão precisava virar algo mais profissional — conteúdo de viagem e estilo de vida, não mais amarrado à rotina de bordo.
A virada estranhou o público. O engajamento caiu, o interesse esfriou. Como todo criador, aquilo me abalou. Pensei muito e resolvi tentar outra coisa: viajar a lazer para gravar.
Eu tinha começado havia menos de um ano no YouTube, com vlogs longos, mais bastidores, mais história. O custo não era baixo — equipamento, edição, mercados, lojas, restaurantes, tudo pesava. Mas eu gosto de estar em movimento e, com a minha leve compulsão por compras, sentia prazer no processo.
Segui investindo e postei um vídeo por dia durante quase todo o ano de 2025. Digo “quase” porque a gente vai chegar ao dia em que eu decidi desistir.
Procurando um conteúdo que me desse prazer e retorno — porque aquilo também tinha virado o meu trabalho —, decidi gravar voando como passageiro. Entre voos para a Finlândia, a Polônia e o Japão, tive uma ideia: se a China deixaria de exigir visto de turista para brasileiros a partir de junho de 2025, por que não passar rápido por Xangai?
O que era para ser uma viagem dos sonhos, de três dias, virou pesadelo. Um pesadelo de nove meses — até eu finalmente acordar.
Começa aqui a história que eu vivi.
XANGAI, 6 DE JUNHO DE 2025
Pousei em Xangai às quatro da tarde de uma sexta-feira, dois dias depois do planejado. Voando como funcionário de companhia aérea, a gente viaja com desconto alto, às vezes pagando só a taxa de embarque. O benefício tem uma condição: só embarca se sobrar assento.
Eu também tinha o tempo livre que a própria empresa me dava. Depois de nove anos como comissário nos Estados Unidos, consigo trabalhar apenas sete dias por mês; nos meses de baixa demanda, um certo número de tripulantes ainda pode pedir licença não remunerada.
Dois dias antes, não consegui assento no voo de Narita para Xangai. Mudei os planos e conheci Osaka antes da China. Às vezes penso no que teria acontecido se eu tivesse ido no dia certo. Será que teríamos nos encontrado no aplicativo? Será que eu estaria escrevendo este livro? Provavelmente, se não fosse ele, eu teria me envolvido com outra pessoa de traços parecidos. Durante todo o relacionamento, a resposta que eu carregava era essa: por um acaso, a gente se conheceu — e eu era grato por isso.
Às cinco, peguei o Maglev, um dos trens mais rápidos do mundo, que liga o aeroporto de Pudong ao centro da maior cidade da China em doze minutos.
Em pouco tempo no país, eu já me encantava com as pessoas ao redor. Umas recolhidas, concentradas no celular; outras rindo com a família pelo aeroporto, num calor familiar para quem é brasileiro.
Quando visito uma cidade nova, prefiro ficar na área turística. Sem saber o que vou encontrar, nem se estarei seguro longe do centro, sempre me pareceu o mais sensato. Cheguei ao Westin Bund Center, na região mais famosa de Xangai, cercado de arranha-céus e de uma vista de tirar o fôlego. Fui recebido pelo rapaz mais sorridente do mundo, tratado muito bem no check-in inteiro. Tudo indicava dois dias incríveis.
No quarto, comecei a conversar com dois garotos num aplicativo de relacionamento. Eu queria mesmo conhecer um chinês, falar sobre o país, a cultura — e, se rolasse conexão, que algo mais íntimo acontecesse.
O primeiro falava um inglês ótimo. Não havia barreira; eu captava as nuances, o que ficava implícito. Mas, logo de cara, se mostrou arrogante: falava mal das cafeterias, dos pontos turísticos para onde ele mesmo tinha me levado. Uma hora de caminhada que me esvaziou e me fez voltar para o quarto — sozinho, claro —, decepcionado e ansioso para conhecer alguém que valesse a pena.
O segundo era o Dorama, que vai nos acompanhar até o fim desta história e, de certa forma, pelo resto da minha vida.
A gente começou a conversar sem pretensão e logo trocou as redes sociais para ver mais fotos um do outro. No aplicativo, as dele eram sérias — só me lembro de selfies no espelho. Nada mais no perfil: nenhuma preferência, nenhuma pista do que buscava ali.
— Então, o que você procura aqui? — ele perguntou.
— Alguém legal para me conectar. E você?
— Amigos.
Hmm, pensei. Conheço o tipo: enrola na conversa, não sai, faz você perder tempo.
— Ah, só amigos?
— Relacionamento também… mas você disse que não mora aqui.
Aí ele me pegou. Achei fofo, mas eu não ia mentir que estava de mudança para lá. Mesmo assim, perguntei se ele estaria livre mais tarde, que eu queria ver mais a cidade.
Marcamos jantar por volta das oito, num restaurante chamado Chicken & Egg, na região mais cara de Xangai: a Concessão Francesa.
Revejo com nitidez o instante em que saí do Didi — o Uber chinês — e o vi pedindo mesa à garçonete. A primeira impressão foi a das fotos: sério demais, semblante fechado, quase nervoso, como quem resolve um problema. A comunicação truncada atrapalhou meu julgamento; era o oposto da caminhada com o outro rapaz. Sério, misterioso, e eu me sentei diante de um rosto angelical.
Ele perguntou se eu bebia. Disse que adoro jantar tomando um drink. Foi a primeira vez que contei a ele algo de que eu gostava.
O restaurante dava dois drinks pelo preço de um. Mesmo dizendo que não bebia, porque se recuperava de um problema sério no pulmão, ele resolveu me acompanhar.
— Só não gosto de Aperol Spritz. De resto, qualquer um — deixei a escolha com ele.
— Hmm… acho que vou de Aperol Spritz — respondeu.
— Tranquilo. Eu peço um, você pede outro.
A promoção só valia para dois drinks iguais.
Passamos mais de uma hora conversando sobre as minhas viagens recentes, o trabalho nas redes e um pouco sobre ele: o que fazia, o que curtia no tempo livre, muito sobre a China. Ele me ensinou bastante em pouco tempo, mesmo com o inglês limitado e difícil de entender. Para alguém como eu, faminto por informação, o esforço e o conhecimento dele me deixaram fisgado.
Quando pedi a conta, eu já tinha terminado meus dois drinks. Ele mal havia tocado no primeiro.
— Você já tinha tomado Aperol Spritz antes? — perguntei, olhando o copo cheio.
— Já, mas, por causa do problema de saúde, o médico mandou não beber.
— Ah, faz todo sentido. Vamos pedir a conta.
Ele falou com a garçonete em mandarim. Quando ela voltou, fiz o que sempre fiz em primeiros encontros — e faria por meses e anos: paguei. Ali até fazia sentido, já que ele não tocou na bebida e só eu tinha comido.
O que me chamou a atenção, e que só hoje sei ler, é que a garçonete também trouxe o segundo Aperol Spritz dele — o de graça da promoção. Ele tinha pedido o segundo drink junto com a conta. Mas por quê? Não podia beber. Não gastou nada e ainda desperdiçou uma bebida. Levantamos na hora e saímos, deixando quatro copos na mesa: dois cheios, dois vazios.
Os dois cheios podiam ser eu; os dois vazios, ele. Daquela noite em diante, ele agiria para me esvaziar dentro do próprio copo.
Fomos caminhar pelo bairro dele, a algumas quadras. Ele apontou a direção do apartamento e começou a andar para o lado contrário.
E andamos muito. Da Concessão Francesa até Jing’an, onde um templo tibetano iluminado rouba a atenção dos carros e dos arranha-céus, como se fosse de ouro maciço. No budismo chinês, o dourado carrega peso: iluminação espiritual, pureza, perfeição, prosperidade. No meu primeiro passeio noturno por um país sobre o qual eu tinha ouvido tanta coisa ruim, já me impressionei o bastante para saber que voltaria outras vezes.
Ele me levou aos melhores mirantes da cidade à noite, me guiou por pontos famosos e me elogiava sempre que podia. Dizia que eu era muito inteligente por entender placas e sinais em mandarim — o que eu já conseguia por estudar japonês havia anos.
Li o nome da cidade num anúncio: 上海.
— Ah, é Shanghai, né? “Em cima do mar”, também em mandarim?
— Uau, é. A gente nem pensa nesse sentido, mas é isso mesmo. Você é bem inteligente, hein?
Hoje eu revejo esse elogio e me pergunto se não era só uma forma de me deixar cada vez mais confortável perto dele. Porque eu jamais esqueci das outras vezes — depois de meses hiperfocado no mandarim, quando eu já lia frases e anúncios complexos — em que ouvi que meus tons estavam errados, que eu era burro, que mesmo estudando havia tanto tempo não tinha aprendido nada.
Depois de mais de uma hora andando, ele me convidou para ir até a casa dele. Aceitei fácil. Não havia nada nele de que eu não tivesse gostado. A primeira impressão séria? O drink pedido só para desperdiçar? Deixei tudo para trás — e só fui entender escrevendo este livro.
Fomos recebidos pelo cachorro, de uma raça japonesa, oito anos, temperamental. Nada amigável, na verdade, como descobri que eles podem ser. Você vai reparar no comportamento estranho desse cachorro com o passar dos meses — a começar pela mordida que ele me deu na segunda vez que voltei ao apartamento.
Logo na entrada, dei de cara com um quadro de metal coberto de ímãs de viagem, desses que as pessoas colecionam como troféus. Cidades e países de vários continentes. Entre eles, Nova York.
— Você já foi para tantos lugares, até Nova York? — perguntei, curioso.
— Não, não. Esse eu ganhei do meu ex-vizinho, que morava aqui do lado e veio de lá.
Eu ainda ouviria muito sobre esse ex-vizinho. Eram grandes amigos; passaram bastante tempo juntos na quarentena, e ele até o ajudou com o inglês. Mas brigaram e nunca mais se falaram. Na verdade, todas as pessoas com quem ele tinha viajado ou se envolvido antes acabaram do mesmo jeito.
Começamos os primeiros beijos. E é importante que eu disseque este momento.
Para mim, o beijo pode ser amor e desejo. Tem tesão, tem conexão — um jeito delicioso de se aproximar de alguém novo. Hoje penso que, para ele, o beijo viraria algo descartável, e que eu me sentiria controlado por ele. Mas, naquela noite de descoberta, começou como qualquer outro.
Do que você gosta num beijo? Muita ou pouca língua? Seco ou molhado? Fosse qual fosse o meu gosto, ele se adaptaria na hora.
Abri os olhos de leve.
Ele me beijava de olhos arregalados, fixos em mim.
O que para muita gente — e para mim — pareceria estranho virou conexão imediata. Que tesão, pensei. Ele me beija leve, com carinho, e ainda com os olhos cravados nos meus.
Nunca mais fechei os olhos para beijar.
Meus olhos ficaram abertos durante aquele primeiro beijo enquanto o meu cérebro começava a cegar para o que estava acontecendo. Sou presa fácil para quem manipula: mostro tudo o que sinto. Eu me exponho, me explico, digo o que penso sem pensar duas vezes.
Numa breve troca de saliva, eu já me sentia parte dele. E, naquele primeiro beijo, ele parecia sentir o mesmo.
Então ele avançou. Me abraçou, me olhou com os olhos marejados e perguntou:
— Quer dormir aqui hoje? Já está tarde.
Por dentro, eu abria um sorriso largo. Não o de quem só queria cultura ou uma noite qualquer com um desconhecido de aplicativo. Um sorriso de felicidade. De esperança de me conectar de verdade com alguém. Senti a insegurança no tom dele, quase como se eu já enxergasse as partes mais frágeis da sua alma. Não pensei no hotel onde tinha acabado de me instalar, nem na cama em que mal havia deitado.
— Você quer que eu durma aqui? Tá — respondi, com um sorriso leve e sincero.
Hoje, olhando para trás, entendo que muita coisa dali em diante — já na primeira noite, quando tiramos a roupa — foi assumindo um papel de controle na dinâmica entre nós.
Nos primeiros dias, o que senti foi sobretudo dúvida. Insegurança sobre mim mesmo. Uma sensação constante de rejeição vinda dele. E eu tentava racionalizar: quem nunca teve um primeiro encontro que não foi tão bom assim?
Mas havia um padrão estranho. Sempre que eu me convencia de que ele não estava interessado — e que talvez fosse melhor me afastar —, algo mudava.
De algum jeito, ele me puxava de volta.
Hoje tenho a sensação de que, naquela primeira noite, algo começou a se reorganizar dentro de mim. Como se o meu cérebro tivesse iniciado, sem que eu percebesse, um processo de adaptação: uma mudança silenciosa no jeito de responder ao carinho e à proximidade — e também à rejeição e à punição que apareceriam ao longo do relacionamento.
A nossa primeira noite parecia começar tranquila, mas já devia ter acendido vários alertas na minha cabeça. A primeira das dezenas de perguntas que eu levaria nove meses para responder foi feita ali, em seguida.

