O Primeiro Abandono
Ele disse para eu ir buscar minhas coisas na China
Aeroporto do Pudong, Xangai, 25 de setembro de 2025.
Se durante as três semanas de estudo em Xangai Dorama tinha uma estrutura de controle total sobre mim, sabendo onde eu estava e quando me encontraria, mantendo nosso relacionamento sem praticamente nenhum conflito, voltar à rotina de viagens traria o completo oposto.
Como você já percebeu, nas viagens eu pagava tudo — passagens, hotéis, refeições. Isso invertia a dinâmica de poder que ele precisava manter. Do meu lado, era minha forma de cuidar dele. De ser empático e pensar que ele estava pagando pelo aluguel do apartamento que não dormiria, pelo hotel que o cachorro ficaria durante as viagens.
Mas para fazer isso, eu precisava cumprir minha agenda: tinha vídeos para gravar, roteiros para cumprir e entregas para marcas. Eu tinha objetivos que não dependiam dele e que às vezes eram mais urgentes.
Qualquer segundo em que ele se sentisse secundário nessa agenda era insuportável. No fundo, ele era o meu centro. Tudo que eu fazia era por ele e para ficar perto dele. Mas isso não importava.
No aeroporto, minhas responsabilidades recomeçavam. Tentei gravar um vídeo na frente da loja pop-up do Pokémon. Dorama, como todas as vezes em que eu queria fazer algo, me sugeria o contrário.
— Há outras lojas perto do nosso portão de embarque, podemos ir lá ver.
Minha responsabilidade em gravar um vídeo interessante entrava em conflito com a constante tentativa de tomar controle da situação. A tensão aumentava.
— Eu só preciso gravar um vídeo fazendo compras, e adorei essa loja. Não precisamos ficar caminhando muito.
Comprei um Pikachu exclusivo do aeroporto da China, vestindo o tradicional 汉服 (Hanfu) vermelho — como um noivo chinês se vestiria no casamento. Virou meu companheiro das viagens a partir daquele momento.
Embarcamos no voo da China Southern rumo a Osaka, no Japão. Um voo curto, de pouco mais de duas horas. Sentados nos nossos assentos, eu precisava continuar a gravação para o YouTube, além de outras gravações para uma marca de ensino de idiomas.
Seria o primeiro vídeo trabalhando com essa marca. Eles me pediram a temática de comissário de voo, por isso esperei esse dia para gravar a bordo.
Mais uma vez, entrávamos em conflito sobre o cinto de segurança. Dorama fingia afivelá-lo quando a comissária passava pela nossa fileira. Ela continuaria caminhando, ele largaria o cinto para os lados.
O simples fato de se sentir afivelado, preso ao assento, ou de somente seguir uma regra, não era admissível de forma alguma. Eu me segurava mais uma vez. Ele me olhava, sabia qual seria a minha reação.
Com o rosto se transformando sem que eu dissesse absolutamente nada, ele tentaria se explicar.
— Sabe, se for a sua hora, não há cinto que vá impedir que algo te aconteça.
Ele sentia que havia se esquivado. Eu sabia que um cinto de segurança não existe para te proteger de uma queda do avião, mas sim de turbulências inesperadas, abortos de decolagem ou pouso. E o mais importante: o cinto não existe somente para te proteger, mas para proteger os outros ao seu redor.
Para ele, essa função parecia não existir.
Se eu não fosse comissário, talvez não teria me importado tanto.
Insisti. Ele afivelaria o cinto com o rosto se transformando completamente. Como uma criança birrenta forçada a fazer algo.
Pousamos em Osaka às 4 da tarde. Alguma discussão ocorreu. Não consigo me lembrar sobre o que era.
Às 16h20, eu enviava a seguinte mensagem em mandarim, traduzida com ajuda de inteligência artificial, numa tentativa de que ele entendesse exatamente o que eu queria dizer:
— 开始为你说的话和做的事负责 — “Comece a se responsabilizar pelo que você diz e pelo que você faz.”
— 你如果想要挑刺的话不必等到现在 — “Se você queria arrumar briga, não precisava esperar até agora.” 挑刺 literalmente significa “escolher espinhos” — uma expressão para procurar defeitos, provocar ou arrumar briga por coisas pequenas.
Tenho absoluta certeza de que não era algo pequeno. Eu chegava ao meu limite mais rápido que antes. Mas ainda continuava tentando ter uma conversa séria, focando no que eu enxergava como problema: a falta de responsabilidade, a ausência de um pedido de desculpas, a constante forma como eu era culpabilizado.



