22. A Primeira Virada
Ele disse que eu havia perdido o brilho
Harbin, 25 de Dezembro de 2025
Meu DiDi chegou antes que o de Dorama. Entrei no carro sabendo que ele esperava pelo seu à minha esquerda. Antes de sairmos do estacionamento do parque, virei o rosto procurando por ele, sem sucesso. No caminho, eu tentava me convencer de que eu não deveria carregar toda a culpa daquela discussão.
Cresci com minhas expressões faciais entregando tudo o que sentia antes mesmo que eu pudesse entender o que estava acontecendo. Escutei de colegas de trabalho, amigos, de ex-namorados e familiares o quanto meu rosto mudava em uma fração de segundos, e como isso me fazia uma pessoa expressiva. Depois que fui diagnosticado com TDAH, passei a entender meu comportamento impulsivo, minha sensibilidade à rejeição e meu medo de ser abandonado. Mesmo aprendendo a aceitar meu sentimento de frustração, até hoje não consigo controlar minha reação facial. Aprendi a reconhecê-la, a contornar a situação com palavras e até a me desculpar caso a pessoa com quem converso reaja ofendida.
E Dorama sabia de tudo isso. Assim como escrevo sobre mim neste livro, eu me comunicava com ele. E com qualquer outro rapaz com quem saía em mais de dois ou três encontros, ou um novo amigo que passei a conviver com frequência. Ouvi de todos eles como meu aviso os deixava “curiosos” quanto a esta reação, afinal, acredito passar a imagem de raramente ficar nervoso.
Por outro lado, ele havia “apenas” mudado de ideia. Mesmo já tendo conversado com ele sobre o quão negativamente essas mudanças abruptas me desestabilizariam, jamais cheguei a pressupor que ele agiria de forma deliberada.
Tentei conversar, mas não havia diálogo. Seus argumentos eram ataques, suas palavras não demonstravam interesse em solucionar o problema.
Fui o primeiro a chegar ao hotel quase uma hora de viagem depois. Deitei na cama com meus pensamentos descontrolados em um turbilhão de emoções. Ali fiquei por um bom tempo com minha ansiedade, raiva e decepção. Assim que Dorama entrou no quarto, perguntei onde ele havia ido. “Estava comendo em um restaurante”, ele respondeu apático.
A discussão continuou da mesma forma que as outras: ataques sobre minha feição, o jeito como me dirigia a ele e o quanto eu “o maltratava” somente porque estava pagando por toda a viagem. Eu tentava me defender me explicando, mas também o responsabilizava pela falta de paciência e autocontrole. E a situação se escalava. Não demorou muito para que ele ameaçasse me deixar novamente. “Quando você voltar para Xangai pegue suas coisas na minha casa”, ele repetia a frase que ouvimos antes com raiva no tom de voz.
Tentei mostrar o quão imprudente ele estava sendo. Eu havia reservado o hotel em Shenyang, nossas passagens de trem e a passagem de volta para Xangai. Dizer que perderia dinheiro não surtiu efeito algum, e ele continuou a arrumar suas malas.
Abri o aplicativo do hotel no celular, e cancelei a reserva de Shenyang. Abri o aplicativo onde reservei as passagens de trem e avião, e cancelei nossas reservas. Paguei taxas altas de cancelamento, recebendo um estorno mínimo. Reservei a primeira passagem disponível de Harbin para Xangai na manhã seguinte. Estava decidido.
Levantei da cama, abri meu pote de pré-treino, despejei dois medidores inteiros dentro de um copo d’água, rodei-o algumas vezes e engoli toda a água de uma só vez. Coloquei uma roupa de corrida e estava prestes a sair do quarto para a academia. Algo me fez parar. Era o medo do que ele faria no quarto quando saísse. Olhei para minha mochila com meu computador e documentos. Meu passaporte e carteira estavam na escrivaninha do quarto. Juntei tudo que possuía de valor e de mais importante dentro da mochila e deixei o quarto.
Não sabia nem sequer se o hotel possuía academia ou se estava aberta. Consegui encontrá-la depois de um tempo entre os andares do hotel, larguei minha bolsa no chão, subi na esteira e comecei a correr. Eu só precisava de 15 minutos em cima dela até que meu cérebro começasse a fazer o seu trabalho. Eu me sentiria melhor em breve, assim como me senti em Guangzhou. “Dessa vez, peguei o seu cartão do quarto e ele não poderia voltar”, pensei.
Em menos de cinco minutos, entrei em pânico. “Ele não poderia voltar”. Eram 5 da tarde, o sol já havia se posto e agora fazia -20 graus lá fora. “Para onde ele vai nesse frio? Não posso deixá-lo fazer isso”, pensei.
Desliguei a esteira, peguei minha mochila e saí correndo em direção ao elevador. Subi até o andar do quarto e o encontrei literalmente à minha frente, do outro lado do corredor, esperando pelo elevador. “Vamos voltar para o quarto e conversar”, eu pedia. Ele recusou. Insisti novamente, usando mais palavras e um tom de voz mais alto: “Aonde você vai? Está frio lá fora. Por favor, vamos conversar”. Ele respondeu dizendo que não queria conversar no meio do corredor com diversos quartos à nossa volta. Peguei sua mala e caminhamos de volta ao nosso quarto.
Continuávamos sem conseguir conversar. Eu não podia aceitar que tudo era minha culpa. “Eu cresci celebrando o Natal com a minha família no Brasil. Virei comissário de voo e passei essa data no quarto do hotel por diversos anos, sozinho e triste. Mudei-me para os Estados Unidos, desisti da profissão de comissário e virei garçom. No primeiro Natal que trabalhei servindo famílias felizes, chorei do lado de fora do restaurante pensando na minha. Mas nenhum Natal foi tão terrível como esse. Você estragou o meu Natal”, eu pensei. Por mais que quisesse muito, eu não conseguia falar isso. A certeza de que eu o machucaria me impediu.
Horas se passaram. Com momentos de calma e de conflito, não chegávamos a lugar algum. Precisei desabafar com o cuidado que pude:
“Eu sei que o Natal não é importante aqui na China. Mas eu cresci comemorando esse dia com a minha família. Virei comissário de voo e sofri muito longe de todos durante essa época. Eu escolhi estar aqui com você ao invés de voltar para o Brasil. Minha mãe está me mandando fotos da ceia de ontem, do almoço que eles estão fazendo, desejando ‘Feliz Natal’ para nós dois e dizendo que queria que estivéssemos lá. E desde ontem estamos brigando. Esse foi o pior Natal da minha vida”. A última frase teve o peso necessário para que ele sentisse a dor que eu sentia. Seu rosto tenso dava lugar a um olhar de culpa. Parecia que era exatamente isso que ele buscava a todo tempo: ser culpado pelo que eu sentia.
Pouco tempo depois, deitou-se ao meu lado. Me abraçou enquanto eu olhava para o teto, talvez na tentativa de me consolar, mas eu continuava a sentir frio e cada vez mais vazio por dentro.


